10º dia - Taíba e o "até logo"

Quando eu acordei tudo em que eu não queria pensar era na minha partida, prevista pra 00:48, mas isso era simplesmente impossível. Minha mala arrumada, diferente da bagunça que costumava estar, só me fazia lembrar disso a cada olhar e, por isso, decidi descer logo para encontrar com ela e esquecer dessas coisas num abraço, como já estava acostumado a fazer.

Ela ainda estava com roupa de dormir e tão linda quanto esteve a cada manhã dessa semana. Um beijo rápido e um abraço demorado antes de ir pra cozinha encontrar com seus avós e nos preparar para tomar café.

O café da manhã foi solitário, eu e ela, e conversamos sobre coisas aleatórias, rimos, nos beijamos, nos batemos, nos trollamos... com certeza não parecia com um último dia e eu, definitivamente, não queria que assim parecesse, afinal, temos ainda muitos dias por vir.

Até conseguirmos sair de casa demorou um pouco, tivemos que esperar o tio dela e a namorada dele terminarem de se arrumar e tomar café, para depois partirmos.

Uma vez a caminho a gente quase não se perdeu, só não sabíamos muito bem onde estávamos. Tá bom, em alguns momentos não fazíamos idéia de onde estávamos, mas eu não faço idéia mesmo de onde fica nada no Ceará, só estava preocupado por ninguém mais que estava no carro saber.

No fim chegamos em Taíba, uma prainha bem tranquila, cheia de gringos e crustáceos estranhos que pareciam baratas. Por sorte não ficamos muito tempo por lá, só tiramos algumas fotos rápidas e seguimos viagem para uma tal praia deserta um pouco a frente.

A praia não era tão deserta quanto o nome deserta sugere, mas acho que dava pra contar na mão quantas pessoas tinham lá, sem exagero algum.

Todos com fome, nos sentamos e começamos a banquetear no meio da praia: Fandangos, Stax, Coca-Cola, frango assado... sim! Frango assado, e tava bom, obrigado. Tudo isso enquanto algumas Hilux passavam ao fundo.

Quando enfim fomos pra água foi que nós descobrimos porque é que a praia era tão deserta. Tinha mais pedra que água por lá e, por conta disso, decidimos ficar pela areia mesmo, depois de eu conseguir um arranhão no joelho, claro.

Jogamos um pouco de frescobol, eu e ela, ou pelo menos tentamos. Nós corremos mais que jogamos pra falar a verdade, mas foi super divertido só pelo fato de estarmos juntos rindo um da grande habilidade do outro em rebater aquela bolinha.

Quando enfim desistimos ficamos conversando sobre coisas aleatórias, desenhando corações na areia e tirando fotos. Foi assim até irmos pra casa.

Em casa já era noite e o tempo estava acabando. Eu e ela ainda queríamos ver o filme que eu levei, chamado "Em algum lugar no passado", e tínhamos também que tomar banho e nos aprontarmos para ir pro aeroporto em seguida.

Tínhamos pouco tempo para ver o filme mas decidimos que esse tempo seria o suficiente, teria que ser o suficiente.

Quando acabou o filme nós corremos para o aeroporto, já um tanto atrasados, só para descobrirmos que eu não poderia mais embarcar porque o check-in do meu vôo já havia encerrado.

Pra falar a verdade, eu não me importaria de ter que viajar outro dia e ganhar mais alguns dias com ela, mas infelizmente, ou felizmente, conseguiram remarcar meu vôo para dali a 3 horas. Bom, de qualquer forma já foi um avanço, consegui mais 3 horas com ela.

Fui fazer meu check-in e ficamos conversando na janela panorâmica de onde se pode ver os aviões decolando. Em nenhum momento durante essa nossa conversa eu pensei no momento em que eu iria partir, me desliguei completamente desses pensamentos e pensei só no ali, no momento com ela.

Conversamos sobre como nossos pais se conheceram e eu pensei em como eu contaria a história de como nos conhecemos para os nossos, possíveis, futuros filhos, hahaha!

Quando enfim deu a hora nós fomos nos encontrar com o tio dela e a namorada dele no andar debaixo, o de embarque, e nos dirigimos para o local onde eu deveria entrar.

Ali foi o abraço mais emocionado, o momento mais triste, a recordação mais amarga e a despedida com a promessa de voltar logo.

Depois de um abraço ela tirou o cordão que estava usando e me deu, "Para ter certeza de que você vai voltar", ela me disse. Mal sabe ela que não precisaria de nada disso, só saber que ela quer que eu volte já é mais que o suficiente.

Quando me virei em direção da sala de espera para o embarque eu não sabia se ia ter forças pra caminhar até lá, foi a sensação mais estranha que eu já senti. Eu sabia que ela precisava de mim nesse exato momento e eu desaprendi a deixar ela sozinha durante essa semana. Eu sempre estava lá pra ajudar, mas, nesse momento, eu tinha que ir, tinha compromissos e muitas coisas pendentes do outro lado da distância.

Todo o meu conflito durou instantes até eu começar a andar, ainda incerto se devia olhar pra trás, e é claro que eu olhei pra trás. Olhei pra trás 3 vezes. Nas duas primeiras eu a vi chorando nos braços do tio dela e na última e ela estava olhando pra mim com os olhos cheios de lágrimas, e essa é uma cena que eu nunca vou esquecer. Só o que eu pude fazer foi dar um aceno com a mão, não de adeus, jamais será um adeus, mas sim um "até logo".

Fiquei sentado no portão de embarque com o cordão que ela me deu enrolado no pulso, a beira das lágrimas e pensando em tudo o que vivemos. O meu consolo é de que esse é só o início da história, no final do ano eu volto pra Fortaleza e teremos mais 23 dias um com o outro, até que tenhamos a vida inteira pra decidir o que fazer juntos.